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Por que os cuidados paliativos são indispensáveis durante a pandemia

Por que os cuidados paliativos são indispensáveis durante a pandemia

Embora já tenha tratado do tema em diversas colunas, a questão dos cuidados paliativos volta à baila diante dos desafios do novo coronavírus. Normalmente, quando se fala dessa abordagem médica, voltada para o controle dos sintomas que causem dor ou desconforto, nos referimos a doenças graves e sem possibilidade de cura. No entanto, no meio de abril, um artigo publicado no “The Journal of Pain and Symptom Management” enfatizou como os cuidados paliativos ganhavam outra dimensão durante a pandemia. Mesmo os pacientes que não se beneficiariam de respiradores deveriam receber a assistência necessária para controlar o mal-estar que sentiam. A Covid-19 está mostrando que essa é uma especialidade – ainda que no Brasil não seja reconhecida como tal – norteando todo atendimento que busca a qualidade de vida do paciente, ainda mais quando nos deparamos com falta de equipamentos e seres humanos aguardando um leito de UTI.

O geriatra e paliativista André Junqueira, presidente da Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP), diz que a entidade tem se empenhado em compartilhar recomendações para os serviços de saúde: “há protocolos que vão do controle dos sintomas, trazendo conforto ao paciente, a estratégias de comunicação de más notícias e como lidar com o luto das famílias. O cenário é de muita angústia, de escassez de recursos, e não há nada regulamentado sobre o fluxo desse atendimento”. Ele acrescenta que a SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia) deixou claro que a idade não deve ser critério de seleção durante a pandemia e os idosos não podem ser vistos como menos importantes: “o que queremos evitar é que as decisões sejam tomadas sem a devida transparência, sem as discussões necessárias sobre prioridades e escolhas. É um desafio bioético que diz respeito a todos nós”.

Um dos pontos mais sensíveis se refere aos pacientes com doenças crônicas em situação de terminalidade, nas quais o uso de medidas de suporte artificial de vida não é indicado. Para o doutor Junqueira, eles e seus familiares se sentirão completamente abandonados pelo sistema de saúde se, apesar do prognóstico, não tiverem acesso aos cuidados paliativos. “Quem tem uma doença terminal pode não ser prioridade, mas a associação quer garantir que o paciente se beneficie do suporte paliativo. Mesmo com a sobrecarga do sistema, é possível garantir esse cuidado, usando dispositivos ou medicamentos equivalentes ou pelo menos suficientes para atingir esse objetivo. Do contrário, o que temos é um caso de abandono clássico”, afirma.

De acordo com levantamento da ANCP, o Brasil tinha, até o fim do ano passado, 191 centros de cuidados paliativos, a maioria concentrada no Sudeste, especialmente em São Paulo, e em hospitais. “Estamos nos desdobrando para não interromper o tratamento dos pacientes graves em meio à pandemia. A telemedicina é valiosa mas, nesses casos críticos, o acolhimento físico de um abraço, por exemplo, faz muita falta”, lamentou o doutor Junqueira. “Na verdade, a Covid-19 demanda que todos sejamos paliativistas”, finalizou.